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Sonhar a Realidade, assim dizia um caro amigo.

Existe um presente, uma perdição, um quotidiano de pão e gelo, gente boa de sol e chuva, esconderijos onde fazer amor o dia inteiro, shotes de raiva e florestas de salicornias silenciosas. E ainda cidades sujas, nuas, esfomeadas, onde fala-se demais, escuta-se demenos. Existe um animal que detesta civilizações extremas, que não quer esquecer o ato imprevisível, que sim, tem medo de esquecer a sua Selva.                                Existe um homem capaz de correr com ele, treina-lo, de dar direcção à chama, para aquecer e não desertificar. Dois mundos num corpo só, evoluindo.

Existe a exigência de cuspir ou pintar pelo peito fora as entranhas cerebrais.

Se soubéssemos que somos já perfeitos por sermos imperfeitos, só tínhamos de procurar vida, já que a perfeição é um miraculoso aborrecimento.

 

 

Calpestatori

SAM_1879Trovarsi nella ricezione Cosmica

quando inizia il Rigetto

Grandi isole di sesso al confine

amori perduti nell’oceano lattiginoso in piena:

sguardiverdipaure di trappole traditrici spolpacuore

Solo voci

Non c’è fuoco ad ardere coraggio per anime

perdute nella morsa

Lei entra in auto spalle nude di marmo morbido

ci sarà un gran da fare

Bussano ad una porta nel nulla

“Chi è?”

“Sono Dio”

“Non puoi entrare, festa privata”

“Voglio spassarmela anch’io”

Dà su candele striscianti

cani cioè gioielli da esposizione nella

lussuosa gabbia

Non volevo ferirla anche se…

Sono entrato nella basilica delle carni purpuree tradendo i fedeli con le loro donne

Un Sultano ingiallito da rituali di mille lune orientali disgregate

sul giaciglio di mura e granito

spogliato della pelle

ad osservare la cerimonia del monolite

Vermi conquistano le loro mele dorate dopo

anni di dure umiliazioni e

viscidi rigurgiti

L’antica carovana che scorre incessante

farà il pieno per le strade.

 

                                                                   Francesco Selva

un vecchio Es

O Telefonema do Zé Governo ao João do Gueto

 

– Estou João? Sou o Zé…

– Oh Zé! Há quanto tempo… tás bem?

– Sim, ouve lá, pagaste a renda deste mês?

– Epá… ainda não, mas vou paga-la brevemente

– Despacha o assunto rapidamente

– Ta bem, ta bem, mas o preço dobrou

– Não interessa, aqui vai-se apertando o anzol

– Então, há problemas fiscais?

– Vai haver muito mais

– Do que estás a falar?

– Não te posso revelar

– Vá lá qua dizer á um amigo não é nenhum mal

– …Vai ter Pena Capital

– Oh Zé, para de brincar

– É a serio, não te estou a gozar

– Mas é Anticonstitucional!

– A lei passará e será legal

– Mas… mas é preciso o referêndum do povo!

– Já se fez um segredo voto

– Mas… mas eu não ganho o que chegue para safar!

– Tens de desenrascar

– Mas não é culpa minha ser pobre!

– Pois será… será tua culpa não ter cofre

– Mas… então dá-me forma de trabalhar!

– Eu represento o Estado, não te posso ajudar

– E que eu faço? Vou vender drogas?

– Também vai ter pena de morte

– O quê? Então vou prostituir-me?

– Também vai ter pena de morte

– O quê? O quê? Foda-se, vou roubar!

– Também vai ter pena capital

– Ahah! Já sei! Vou fazer-me de maluco!

– Também não tens sorte,

verdade é que valerá para todo o crime e todo o pecado

– E é crime ser desempregado?

– Serás punido como culpado

-Mas…mas quem são esses génios que perderam o sentido?

– João, considera o lado positivo, vai ficar todo resolvido:

a pobreza, a fome, a desocupação, a poluição, a deflorestação, e especulação, a    imigração, enfim, tudo o que traz dores de cabeça e d’alma. Enfim, é o sacrifício ultimo pela inteira humanidade. Quem sempre quis ajudar, agora poderá.

– E achas que revolução não chegará?

– Qual revolução qual que, a lei será mundial, todo o lado abrangerá

– Ou seja… não há como fugir?

– As fronteiras não existirão, nem lugar para onde ir

– E assim encontraram o vosso jeito de unir

– Vejo que estás a perceber João

– E de onde te surgiu esta frieza toda, seu Camaleão?

– Nada fica, tudo muda

– Então és um filho da puta

– Eu abstive-me

– E tens o cú a salvo

– Pois isto tem muita ironia

– Sim? e porque vossa senhoria?

– A condena é Levar com o Pau até acabar

– o qu… o que… o que?! Meu Deus!

– Pois olha, o padre também estará presente para confessar…

João? João?

– Zé, ter dividas é sujeito á mesma sentença?

– Podes ter a certeza

– Então vou presentar queixa

– Com qual referencia?

– Divida infindável de toda a humanidade. Cada um tem-na de nascença. Cada um vai ficar com o rabo ao ar.

– F-o-d-a-s… Espera lá um minuto

– Ahah! Ninguém lembrou-se deste problema particular?

– Parece que não. Como vês é sempre no povo que estamos a pensar

 

VOZES DE FUNDO DO OUTRO LADO DO APARELHO

 

– João? Está tudo resolvido, retiramos os documentos

– Imbecis! Vocês são sempre fortes com o cú dos outros

– É a missão dos poderosos

– E tu vais ter a honra de ter safado o mundo e a nação

– Podes crer, mas tu paga a renda, seu aldrabão!

– Adeus Zé

– Adeus João

 

 

 

 

 

 

Francesco Selva

 

E-stási

20190408_202924.jpgTrucidato é lo sciocco

peduto nel come del come

Padre

mi fa capire

come non pretesi mai il tuo tempo

mai ricevuto

Infine

avresti dovuto darmelo?

Sappi

l’amarezza e la marezza

sono speculari

 


 

Trucidado é o otario

perdido no como do como

Pai

me dá a entender

como nunca pedi o teu tempo

nunca recebido

Enfim

dá-lo a mim devias?

Sabes

a amargura e a margura

são especulares

 

 

                                                Francesco Selva

                                             ou/tr/a vez

A difícil ida ao rio

20180501_005122.jpgSaí numa preguiça esfomeada

Entrei no café oriental

Crianças e baratas jogavam a descobrir

donde eu vinha e eu vinha

do subúrbio burguês

das suas distracções de qualidade

onde tudo é dado

e os pés nus não se molham

ao tropeçar no lamaçal

 

Saí numa preguiça divertida

Entrei na loja central

velhos e jovens compravam a revolução

colocada na montra e na montra

de vidro murado

inauguraram o buffet à borla

à mão livre e de mão dada

e as mãos nuas não secam

ao tropeçar na limpeza

 

Indo ao rio

saí numa preguiça auscultadora

disseram-me no caminho ocidental

– o que tem de ser tem muita força –

saiu-me então pela garganta fora

uma preguiça faladora

– Nada é dado

caçadores resilientes

autodeterminação é não deixar o amor

apodrecer –

 

Luppola Selva

Rua Comercial    Pr/og/ress

Lettera al World Family Congress

Allen-Jack001

 

Amore non é quantitá

Quantitá é il suo limite

la sua espressione

Viene con la nascita

Ci si prenda cura dei cuori prima che della ragione

o li si lasci in pace

espandersi

 

Apri le porte per lasciarlo entrare

non chiede permesso

e nessuna legge potrá ammazzarlo

Chiudile e potrai farlo a pezzi di nascosto

vivere col suo cadavere 

per sempre in putrefazione

 

Amore é qualitá

Libertá é il suo illimite

la sua espressione

Viene con la nascita

Per quale ragione si insegna a domarlo?

Lo si lasci in pace

espandersi

 

Signori e Signore

Non esiste morale in amore

Non esiste male in amore

Non esiste pretesa in amore

É un bene assoluto

É un forno comune

É Anarchia

 

                                       Francesco Selva

                                     00/00/0000

 

Il cane che morse il dialogo

20190319_184527.jpgSi aveva sete sotto gli archi dell’acquedotto

perché seduti dal lato sbagliato del flusso

Dai grattacieli ci osservavano con grandi binocoli

per un senso d’intimitá che un cane non capiva

– Dovreste annusarvi lo sterco- ribatté

Non si aveva acqua per il lavaggio

ma l’acquedotto pensava potessimo tutto

e mandó il divenente-divino a parlare

una forma incomprensibile che rimase incomprensibile alla forma

Restó da solo a pizzicarsi la barba

finché divenne piú lunga del suo braccio

Il cane allora lo azzannó

e tutti si corse sui grattacieli

dove si barattó la salvezza dell’acqua delle toilettes

per gli ingerenti binocoli

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A luz tépida aclara a cara das pessoas. Os soluços que os carris provocam fazem o meu corpo tremelicar. Sente-se o cheiro a vazio. Ouvem-se conversas aleatórias em vários idiomas e sotaques. Observo, escuto, e sinto.

Há tranquilidade em estar sozinho no meio da multidão. Há um calor que vem de dentro. Sinto-me estranhamente contente com o ritmo que a esuridão da noite traz. Aquela energia do anoitecer quando, depois de um dia preenchido, te sentes mais tolerante e apaziguado. Talvez o facto de hoje não puder fazer mais nada em relação a coisa nenhuma me deixe mais calmo.

Alimento distracções para não ter de lidar com o verdadeiro problema. Não será a própria vida isto? Os entrentantos. Quando estamos aluados. A sensação desvanece num túnel de betão e cimento. Escuro e sombrio. Movimentado e ruidoso.

O aglomerar de gente desperta instintos de sobrevivência. A competição selvagem é ilusória, mas há uma constante guerra fria em qualquer selva urbana. Parece que sinto o sabor da poeira e da sujidade ao respirar. Recai sobre mim um peso forte nos ombros. Não consigo afastar algumas responsabilidades que não me pertencem. E quero, com uma respiração menos profunda e mais acelarada, resolver e entender o meu lugar no mundo.

A confusão e o ruído embulham-se.

 

Giuliano